03 outubro 2021

VBC Mrt 6x6 Guarani, as novidades


Por Paulo Roberto Bastos Jr.*

Em março do ano passado, o site de Tecnologia & Defesa apresentou uma matéria sobre o projeto da viatura blindada de combate – morteiro, média sobre rodas (VBC Mrt-MSR) 6x6 Guarani, a próxima versão da família de blindados sobre rodas proposta pelo Programa Estratégico do Exército (Pgr EE) GUARANI, do Exército Brasileiro (EB).

Nesta matéria foi informado que se estava próximo da abertura do processo licitatório para a escolha do morteiro de 120 mm, com sistema de recuo atenuado, do sistema, porém, devido à pandemia de covid-19, este (assim como outros programas) foi adiado. Todavia, os trabalhos continuam e, no mês de setembro, ocorreram diversas atividades.

Com o intuito de atualizar as informações, serão destacados os mais relevantes.

Ares / Elbit SPEAR


Em 14 de setembro, a empresa ARES Aeroespacial e Defesa apresentou o sistema de morteiro SPEAR e SPEAR LR, da Elbit Systems, na sede do Comando de Operações Terrestres (COTER), em Brasilia (DF). Na ocasião, e com a presença do chefe do Centro de Doutrina do Exército (C Dout Ex), general de divisão Sérgio Luiz Tratz, e representantes do Departamento de Ciências e Tecnologia (DCT), Diretoria de Material (DMAT), Escritório de Projetos do Exército (EPEx) e Estado Maior do Exército (EME), a empresa enfatizou sua experiência em programas que contemplam transferência de tecnologia e, no caso da munição para morteiros de 120 mm, estando apta a transferir conhecimento de sua fabricação, identificando a IMBEL como uma possível parceira nessa área de atuação.



Reunião no COTER (Imagens: Ares)

O SPEAR é uma evolução da família Cardon, sendo mais moderno e mais leve que seu antecessor. Trata-se de um sistema autônomo e informatizado, para montagem em blindados leves e médios, com uma equipe de dois a quatro operadores, raio de giro de 360º, alcance máximo com munição convencional de 7.000 metros e capacidade de executar o primeiro disparo em 30 segundos. Possui sistema de carregamento automático, com cadência de 16 tiros por minuto (TPM) por um período curto, e uma cadência sustentada de 10 TPM, e de amortecimento de recuo com menos de 15 ton, podendo ser utilizado em viaturas 4x4.

O SPEAR LR tem um tubo de dois metros de comprimento, com sistema de carregamento semiautomático ergonomicamente integrado, permitindo Alcance de até 10 km com munição de alta energia e de recuo com menos de 20 ton, para viaturas 6x6 e 8x8.

Ambos os conjuntos podem ser equipados com sistemas de controle de tiro, navegação, mira automática e propulsão de última geração, que facilitam uma operação totalmente autônoma e proporcionam maior poder de fogo e precisão (até 30 metros do raio de probabilidade de erro circular – CEP), e facilmente integrado com sistemas de aquisição e identificação de alvos, que aumentam a consciência situacional, utilização em um sistema integrado de artilharia e a capacidade de sobrevivência da tripulação.

Sistema de Morteiro Spear, da Elbit (Imagem: ARES)

RUAG COBRA


A suíça RUAG Schweiz AG está oferecendo o Sistema de morteiro COBRA, que é uma evolução de Sistema Bighorn, em uso desde 1998.

Neste sentido, a empresa convidou o EB para participar de uma demonstração de tiro real, com a utilização de seu sistema instalado em uma viatura GDELS Pandur II 8x8, na cidade de Bratislava, capital da República Eslovaca, no período de 18 a 25 de setembro. Dois militares foram enviados: o major Márcio Nascimento de Souza Leão, do Arsenal de Guerra do Rio (AGR), e o primeiro-tenente Matheus Henrique Ferreira Moura, do Centro Tecnológico do Exército (CTEx).

A demonstração de tiro e funcionamento do sistema ocorreu ao longo do dia 22, em um polígono de tiro localizado cerca de uma hora da capital eslovaca. Mesmo sobre condições meteorológicas não favoráveis, com chuva leve e baixa visibilidade, foram realizados diversos disparos, simulando tiros pontuais com cadência comum, cadência acelerada, com comando manual e exercícios do tipo “atirar e sair” (quando a viatura se posiciona, atira, muda de posição, volta a atirar e sai de posição novamente).

Testes da VBC Mrt Pandur II com o sistema COBRA, na Eslováquia, acompanhado pelos brasileiros (Imagem: DF)

Como se tratavam de dois Oficiais do Quadro de Engenheiros Militares (QEM) houve grande interação com os técnicos da empresa e, após questionamentos dos militares brasileiros, ocorreu uma simulação da desmontagem inicial do tubo, procedimentos para retirada de munições falhadas (retirando a munição falhada pela boca do tubo com uso de saca-granadas e com a retirada da munição por meio da desmontando a culatra), ajustes manuais de mira (azimute e elevação) e disparos manuais, para o caso de falha no sistema elétrico. Ainda foram apresentados ferramentais de manutenção e alguns acessórios, que eram bem similares aos utilizadas nos morteiros (Mrt P 120 M2 R) fabricados pelo AGR e em uso pelo EB.

Thales 2R2M


No dia 28/09, o AGR, organização militar diretamente subordinada à Diretoria de Fabricação (DF), recebeu a visita institucional de representantes e engenheiros das empresas Thales e Omnisys.

Na ocasião, o diretor do AGR, o tenente-coronel Juacy Aderaldo Menezes, acompanhado de representante DF, discutiu com os visitantes diversas propostas para o desenvolvimento de projetos industriais em conjunto para a produção de armamentos pesados nas instalações brasileiras, e foi constatada pela empresa francesa a competência técnica e fabril do Arsenal, que teria plenas capacidades de rapidamente absorver a tecnologia e produzir seus tubos dos morteiros e obuseiros.



Visita dos representantes da Thales e Omnisys ao AGR (Imagens: sd Feitosa e sd Pessoa / Seção de Comunicação Social do AGR)

O Thales Group está oferecendo o seu sistema 2R2M, produzido por sua subsidiária TDA Armements, que e está em uso no Exército Francês (nos blindados Griffon 6x6 MEPAC do Projeto Skorpion), Italiano (blindados 8x8 Freccia), da Malásia, Omã e Arábia Saudita.

NORINCO SM5


O conglomerado chinês Norinco Group (North Industries Corp), uma das maiores empresa do mundo, tem apesentado diversas soluções para atender as demandas do EB. No projeto do VBC Mrt ela esta ofertando seu morteiro Mod. SM5.

Sistema de morteiro embarcado Norinco SM5 (Imagem: Norinco)

Trata-se de um moderno sistema, que pode utilizar um tubo de alma lisa ou raiada, com um dispositivo amortecimento de recuo com menos de 10 ton, sistema de carregamento automático, dispositivo de controle de acompanhamento com atuador de elevação e de azimute que atuadores, que podem ser elétricos, pneumáticos, hidráulicos ou alguma combinação destes, e sistema de controle de tiro com painéis de controle para o comandante e atirador.

Possui raio de giro de 360º, com ângulo de elevação entre 45º e 80º, alcance entre 400 e 7.500 m, com munição convencional, e de 13.000 m, com granada de alcance estendido por foguete, e tempo de reação de não mais de 30 segundos.

O sistema é uma evolução do modelo SM4, um projeto consolidado e exportado para diversos países. De acordo com a empresa, esse sistema pode ter sua tecnologia de produção transferida totalmente para o Brasil.

Norinco SM5

As expectativas


A VBC Mrt-MSR 6x6 Guarani encontra-se na fase de projeto no EPEx, e teve seus trabalhos preliminares feitos com o auxílio e acompanhamento de um grupo de trabalho envolvendo a empresa Iveco Defence Vehicles e a Comissão de Absorção de Conhecimentos e de Transferência de Tecnologia na Iveco (CACTTIV), subordinada a DF. Atualmente está sobre a responsabilidade do CTEx, sob orientação do COTER.

Este programa visa atender uma demanda, de mais de uma centena de sistemas, das organizações militares de Artilharia, Cavalaria e Infantaria das brigadas mecanizadas, e tem a previsão de entrar na fase de licitação internacional em breve, o que deve movimentar o mercado internacional.

Independente do modelo a ser escolhido, que será aquele que atenderá aos requisitos técnicos da Força, o importante é que ocorra uma real transferência desse conhecimento, de forma a criar uma independência, e a produção compartilhada com o AGR seria uma excelente solução, pois aproveitaria (e ampliaria) suas capacidades. As empresas Thales e ST Engineering/Technicae já apresentaram interesse em investir na modernização do parque fabril do AGR.

E sempre é bom lembrar que, mais importante que TER um sistema de armas, é a capacidade de MANTER em operação sempre que este seja solicitado.


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FONTE: Tecnologia & Defesa

*Sobre o Autor: Paulo Roberto Bastos Jr.
Engenheiro de automação e Pesquisador militar, especialista em blindados e forças motomecanizadas da América Latina e Caribe.

Nota do Defesa Brasil Notícias: Matéria reproduzida com autorização do autor.

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