LUV: o que são e para que servem


Por Guilherme Poggio

LUV ou ‘Light Utility Vehicles’ são veículos terrestres leves ou relativamente leves, de dois eixos e tração nas quatro rodas, que executam um vasto número de funções militares. Na década passada os LUV passaram por uma verdadeira revolução.

A origem dos LUV pode ser traçada na segunda década do século XX, quando veículos civis adaptados foram empregados como elementos de ligação terrestre, transportando pessoas e materiais leves. Esses veículos substituíram os tradicionais cavalos durante a I Guerra Mundial (1914-1918).

Já ao tempo da II Guerra Mundial, surgiu o representante mais conhecido dessa categoria, o famoso ‘Jeep Willys’. Desde então, esse veículo e seus derivados vêm sendo largamente empregados em diversos teatros de operações por todo o planeta. O Jipe (do inglês ‘jeep’) tornou-se não só uma referência, mas também emprestou seu nome para todo e qualquer LUV semelhante.

Comumente, em conflitos convencionais, os jipes eram empregados atrás das linhas de frente. Esta era a situação ideal de emprego dessa classe de veículos, em situações em que os oponentes envolvidos possuíam forças relativamente equilibradas.

No final da década de 1970, o Exército dos EUA resolveu substituir os jipes e outros veículos leves de propósitos múltiplos pelo HMMWV (High Mobility-Multipurpose Wheeled Vehicle). Desde então o ‘Humvee’, como ficou conhecido, transformou-se num divisor de águas e revolucionou a categoria LUV, inspirando projetos semelhantes por todo o planeta.

Novos desafios


Com o fim da Guerra Fria, houve uma explosão de conflitos assimétricos e de baixa intensidade. Ganhando destaque na década de 1990 e intensificando-se no início do século XXI, esses conflitos deram novos contornos ao campo de batalha: a frente de combate bem definida deixava de existir. A guerra foi até os LUV e estes passaram a executar funções para as quais não foram projetados.

As mudanças impostas pelo campo de batalha moderno aos frágeis LUV transformaram esses veículos em grandes vítimas de armas de fogo de pequeno calibre, granadas autopropelidas (RPG, Rocket-Propelled Grenade), minas terrestres e IED (Improvised Explosive Device – artefatos explosivos improvisados). Da Chechênia à Somália, foram várias as baixas sofridas pelas forças militares regulares. Proporcionalmente, o número de vítimas de IED que se encontravam a bordo de LUV tornou-se incrivelmente alto.
Respostas eram necessárias e, na última década, os LUVs passaram por uma nova revolução, com o propósito de adaptá-los aos desafios impostos pelos conflitos deste início de século.

Origem das principais ameaças aos LUV modernos

A partir das experiências em combate, algumas soluções foram adotadas. Uma delas foi a adição de blindagem na forma de kits para os LUV existentes. Mas colocar blindagem sobre chassis antigos não era a melhor solução, nem a única. Foi necessário reprojetar os veículos existentes e criar projetos novos que incorporassem, além da blindagem, soluções de engenharia que reduzissem os efeitos das ameaças e, consequentemente, aumentassem a capacidade de sobrevivência das tripulações.

Nessa classe de veículos, há várias formas de mitigar o efeito sofrido, pelas tripulações, por explosões provenientes de minas terrestres ou IED. Uma delas é o aumento da distância do chassi em relação ao solo, de forma a maximizar a dissipação da explosão e orientar parte da sua energia para as laterais, principalmente se essa solução é combinada a uma estrutura em forma de ‘V’.

A detonação de uma mina também costuma deslocar para cima alguns componentes do veículo, localizados logo abaixo dos tripulantes. Um exemplo é a caixa de transmissão, que possui massa considerável. Por esse motivo, alguns projetos recentes de LUV transferiram esse componente para a parte de trás do veículo. Projetos do tanque de combustível também vêm sendo refeitos, para que sejam instalados o mais longe possível da tripulação.

Modernos LUV como o IVECO LMV Lince mostrado acima possuem um habitáculo separado da estrutura do veículo, aumentando a sobrevivência dos seus ocupantes

Os efeitos residuais ou secundários da detonação sobre a tripulação podem ser absorvidos por assentos aeronáuticos antichoque, muito semelhantes aos empregados em helicópteros. Outras soluções incluem vidros balísticos, cintos de segurança de cinco pontos e proteções laterais para a cabeça.

O uso de equipamentos de guerra eletrônica que detonam explosivos antes da passagem do veículo, ou que embaralham o sinal de rádio de dispositivos remotamente controlados, devem ser somados a essas soluções de engenharia.

Os LUVs evoluíram para unidades táticas de combate complexas e seguras. Boa parte desse avanço foi conseguido às custas de um contínuo aumento do peso: os primeiros Jeep Willys pesavam cerca de meia tonelada. Com o Humvee, esse valor subiu para mais de três toneladas. Hoje, muitos dos novos LUV superam com facilidade sete toneladas, ficando bem próximos da categoria seguinte, dotada de seis rodas: W-APC (“Wheeled Armoured Personnel Carrier” – Veiculo Blindado de Transporte de Pessoal sobre Rodas). O principal responsável pelo incremento de peso é a blindagem.

Evolução


Balancear blindagem e mobilidade será sempre uma questão desafiadora para projetistas de LUV. Ambos os fatores contribuem para a sobrevivência do veículo e de seus ocupantes, bem como para o cumprimento da missão. Os novos projetos estão focados na resistência da estrutura e na capacidade de absorver danos em combate. Por este motivo, os LUV modernos não são mais adaptações de veículos existentes e sim projetos específicos, baseados em requisitos próprios.

Além disso, os LUV do futuro deverão apresentar aspectos furtivos em seus desenhos, com significativa redução de suas assinaturas radar, termal, acústica e visual, além de pintura com materiais absorventes de ondas de radar.

O aumento da sobrevivência desses veículos leves foi acompanhado da explosão dos custos. Dependendo da versão escolhida, o valor unitário de um LUV pode superar um milhão de dólares. Para conseguir o melhor desempenho dos veículos, a informatização dos sistemas e os refinamentos tecnológicos precisam ser acompanhados de tripulações treinadas, o que gera mais custos. Por esse motivo, o emprego de simuladores nessa categoria deverá ser uma regra.

Mas há quem pregue o fim do LUV em ações táticas. Por serem veículos de quatro rodas, os LUVs podem ser totalmente imobilizados se apenas uma delas for inutilizada. Nessa linha de raciocínio, alguns especialistas defendem que somente veículos com seis ou oito rodas sejam adotados em ações táticas, onde a ameaça é sabidamente considerável. De qualquer forma muitas nações continuam investindo em LUV e a tendência é de que esse número cresça.

*A matéria acima é uma adaptação do texto originalmente publicado na revista Forças de Defesa número 2 sob o título “Jipes do futuro”.

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